Tenhas as tuas próprias opiniões

Tenhas as tuas opiniões, antes que esse tempo para refletir acabe. Não pelo fim da vida, mas pela imposição e pela vigilância do que é correto se dizer nas conversas virtuais e físicas.

Já te disseram todos os “nãos”, tu já sabes tudo o que não dizer, não pensar. Sabes tudo o que pode ser incorreto nos dias de hoje.  Ser “pró o que”, e ser “contra o que”. Isso é bom, aquilo não.

Te pedem tanto que penses como a maioria, que tua individualidade vai se apagando com o tempo. Teus preconceitos podem se apagar, e tuas idéias próprias podem ir junto. Tu te apagas, esmaeces sem notar, tens dúvidas se aquilo que pensas é o que as pessoas gostariam de ouvir. Isso mesmo: o que agrada se torna o essencial, e não o conteúdo daquilo que pensas.

Ter opiniões próprias é bom, porém há informação demais à disposição, a qualquer hora, para quem quiser.  Há velocidade e volume de informações, mas te  falta tempo para refletir sobre  tanta, mas tanta gente dizendo tanta coisa ao mesmo tempo.

Se não refletes, refletem por ti. Claro que é mais cômodo que te apresentem as conclusões, e claro que com o tempo te silenciarás,  para não estares fora do mainstream.

Quando tu optas por silenciar os teus pensamentos, mudando as tuas idéias de acordo com o que os outros pensam que é o correto, não aprendeste a refletir, mas aprendeste a concordar. Vais silenciando tua mente e te tornas apenas mais um observador na multidão.  Este é o fim a que me referi no começo, o fim da capacidade de concluíres por conta própria.

Mas lembra que falo sobre refletir, não sobre dizer para todos o que pensas. Apenas sobre  teres compreensão e opinião pessoal.

Acho justo e  prudente quando teu silêncio for voluntário, mas e se ele existe porque paraste de concluir por ti?

Pensa nisso.

Fofocas

Imagina um bloco de argila. Imagina que tua mão faz pressão nele. Depois que a retiras, enxergas a impressão em negativo de tua mão que fica na argila. Dessa interação ficou uma marca que tu podes ver, tocar. Imagina agora que são pessoas interagindo. Uma pessoa fala e a outra escuta. A que fala altera a realidade interior da que escuta, como a mão que ficou impressa na argila. Eu estou escrevendo e tu estás lendo agora. Estou tentando “imprimir” meu pensamento, certo?

Te convido agora a pensar sobre um tipo de interação social, onde uma pessoa procura deixar uma marca bastante forte em quem escuta. Me refiro a um tipo de conversa onde uma terceira pessoa não está presente fisicamente, mas é o assunto.

Tu já sabes, é a fofoca, tão comum e tão incômoda, que quero oferecer meu ponto-de-vista e tentar oferecer uma saída construtiva para ti.

Pessoas falam mal dos outros, e demais, sem perceber o real tamanho do dano que isto causa a todos os envolvidos. A intensidade da percepção do que se falou varia de acordo com a pessoa que escuta. Os assuntos maldosos podem ser resumidos assim: “Sabe quem (traição – sexo)? Aquele que se dizia tão honesto (roubou, não pagou – dinheiro). Sexo e dinheiro quase sempre. Quem fala mal de outra pessoa se sente como se tivesse algo especial para oferecer, e como se a fofoca fosse um presente. Na mente do fofoqueiro é um prazer falar mal de outra pessoa.

E quando não posso evitar que alguém chegue me dizendo “nem sabe o que aconteceu com o/a fulano/a?”. Não deu tempo para escapar, e agora? O que faço nestas horas?

Quando sofro a influência de alguém que precisa falar mal de outra pessoa, costumo pensar no que a pessoa me diz, e também por que esta pessoa está me dizendo isso agora?

Penso exatamente assim. Como estou escrevendo sobre fofoca, a característica que me faz observar com atenção sobre o que me foi dito é que os sentimentos despertados em mim são fora do esperado. Se o que escuto me parece irreal, causador de espanto, de decepção súbita. Se percebo sentimentos exagerados, desagradáveis, intensos demais, me ponho a pensar da forma como te sugiro agora fazer como um exercício para tua mente:

  1. Penso sobre a razão. Por que esta pessoa está falando sobre outra para mim? Qual seria a necessidade de me influenciar negativamente assim?

  2. Sobre quem me fala. A pessoa que está me falando costuma falar mal dos outros? Ou não? Acredito na percepção dessa pessoa? Aprecio os pontos de vista dela?

  3. De quem se fala. Como vejo a pessoa de quem se está falando. Gosto? Confio? Não esperava nada de diferente?

  4. Por que agora? Por que me abordar enquanto estou vivendo a minha vida neste exato momento? Por que ser influenciado agora a mudar minha percepção a respeito de outra pessoa?

A razão, a pessoa que fala e a outra pessoa, a necessidade de alguém criar este estado de espírito intenso em mim, e por que exatamente agora? Se consigo responder a estas perguntas me sinto menos influenciado pela intensidade dos sentimentos, e consigo pensar sobre o que realmente está sendo dito: que os bonzinhos sabem a verdade sobre os malvados e vão me contar com exclusividade?

Não, o que entendo é que a pessoa que me fala está tendo uma atitude agressiva antes de tudo. As perguntas que te sugeri antes servem para entender… o fofoqueiro.

Responder a estas perguntas seria como observar a mão impressa na argila. O que mudou da minha percepção a respeito do outro? Existe a mão e a quantidade de força que ela usou. Existe a argila, e existe a impressão (o que fica da interação interpessoal).

Vale a pena escutar e depois pensar sobre o que se escutou. Isto enriquece a própria percepção das motivações dos outros. Possibilita ser livre para pensar o que parecer justo. Este tipo de reflexão também é uma forma de observaçao da mente.

E como reflexão final, bastante prática, podes ter certeza: quem fala mal dos outros para ti irá falar mal de ti para os outros.

“Prezado Doutor K.”, parte dois.

No post anterior escrevi uma comunicação de P. comigo, falando sobre duas semanas que conviveu com sua família, e o que aconteceu segundo sua percepção.  A partir daí tive algumas idéias  a respeito de sua família, que quero dividir contigo: como seu grupo age, qual é a forma mais usual de interagirem? Porque as condutas que se repetem me mostram padrões. Eu gosto de trabalhar observando estas repetições quando o assunto é família.

De pensar a respeito de P. para pensar  sobre famílias em geral foi simples de acontecer. O que pensei, te exponho agora.

Sobre P., vi que há um movimento que parece se repetir. Existe distância entre pai, mãe e filha, ela deixa isso claro. Ela diz que eles como grupo temem falar sobre si, porque as conversas viram brigas. Estarem “juntos mas separados” é um caminho fácil de se entender, pois esta distância existe para preservar a parte amorosa da família. Existe o pai e a televisão, a mãe e o celular, e P. e seus pensamentos que a afastam deles.

Certa vez imaginei que famílias têm regras assim como os jogos de tabuleiro, xadrez especificamente. Neste, o peão anda uma casa, o bispo se move na diagonal e a rainha em todas as direções. O rei, o cavalo, a torre, cada um tem sua forma de se movimentar padronizada. Formando um grupo, o objetivo global das peças é vencer o adversário, pela mão de quem joga. Há estabilidade nas peças e no que podem fazer, o que muda são os jogadores e suas estratégias.

A analogia que faço é que famílias se movem como as peças de xadrez, sobre um tabuleiro formado pelas idéias que cada um tem de si e do outro. Nas famílias, há  estabilidade e instabilidade, mudança e rigidez nas atitudes de cada um: os movimentos.

Existem as gerações anteriores que fazem o contraponto: será esta igual à dos  pais,  ou diferente? Será  menos, mais, o mesmo? O que quer que seja usado para qualificar, a família de origem será usada  como orientadora para a personalidade da família que nasce.

Pessoas  se unem e formam um grupo familiar. E as pessoas que formam as famílias se movimentam então sobre as regras faladas e as não faladas daquilo se pode ou não fazer. Regras que são dadas para cada que cada um assuma seu local no grupo, no tabuleiro de papéis familiares.

Agora as peças, as pessoas e seus movimentos que se repetem.  Cada um recebe uma característica que a define, baseada na sua personalidade. Então existem o  “irritado, o calmo, o gênio,o  festeiro, o louco…” . Se uma pessoa é tida como a “criança” de seu grupo, seja porque é a mais nova, seja porque ela age de maneira infantil mesmo depois de crescer, aos olhos da família ela será vista e tratada sempre como… criança.  Se é uma pessoa que nasce mais pacífica em um meio familiar onde as disputas são a regra, ela será tratada como diferente, logo será a pessoa calma, ou a pessoa que tem medo. Se nasce mais quieta e seus pais não são do tipo que escuta, ela sentirá solidão, e seus pais entenderão que ela “nunca dá problema”, porque ela se calou. Se tende a querer mudanças em uma família de pessoas rígidas, ela será obrigada a se afastar para ser ela mesma, ou a família tentará que ela silencie suas idéias diferentes, porque ela será “do contra”, como P.

Opto agora por aprofundar um exemplo comum que mostra claramente o que digo:  quando há brigas incessantes em família, e quando se considera que o causador das brigas está dentro do grupo. Uma família assim configurada pode até dizer que deseja que as brigas acabem. Pode esperar que alguém um dia irá dizer as palavras mágicas que farão com que todas as discussões acabem.  Mas elas não acabam, porque não há a “verdade final” que trará a paz. Discutir se torna uma forma de se comunicar compulsiva, e enquanto não se entende esta compulsão para brigar, as  discussões não acabam. O que complica a mudança neste tipo de organização familiar é que a compreensão desta compulsão para brigar nunca chega, porque “a verdade” está ora com uma, ora com outra pessoa, e assim vai se gastando a vida. Não se vivendo, mas se usando o tempo de uma forma tão rígida que todo dia é igual, sempre, como uma guerra sem fim. Triste, não?

Posso criar tantas outras formas de funcionamento, mas é só usar a tua  imaginação e observar tua família para te situares com clareza, a partir daquilo te escrevi agora. Pensa : qual é o papel de cada um de teu grupo,  e como  se “movimenta”? Qual a principal característica de cada pessoa que a define? Como ela se comunica com os outros? Faz isso com cada pessoa do teu grupo, e contigo em especial. Se fizeres esta observação explicarás as regras de teu próprio jogo familiar para ti.

Mas lembra: esta visão de como funciona a tua família pertence a ti, dada a tua posição nela. Não é “a verdade ” que agora todos vão ouvir, é a tua visão do teu grupo familiar. Apenas a tua visão, para que tu possas ser mais livre de um papel rígido, se assim desejares.

Tu, e apenas tu, e a forma como te relacionas com os outros. Os outros são como são, mas nenhum deles pertence a ti.

“Prezado Doutor K.”

Uma pessoa apareceu em minha mente, e ela deseja contar sua história. Ela chegou no meio de muitos anos de minha prática como psicoterapeuta. Ela resume muitas e muitas situações que pude conhecer. O nome dela é Uma Pessoa, ou simplesmente P. Com ela está fazendo a gentileza de falar, te peço que sigas seu raciocínio, e entende que para ela não é simples mudar. Nada simples. Ela vai  te contar histórias, pelo tempo que te parecer importante para tua própria vida. Porque ela é uma criação feita para ti.

P.  sintetiza o desejo de conhecer a si, e a mudança de percepção da própria vida que vai acontecendo neste processo. Mudar a percepção de si amplia a visão do mundo, e dá a chance de fazer tudo igual, ou de tentar fazer diferente. De tantas idéias que se apresentam em minha mente, P. se mostrou com a maior capacidade de articular, por isso ela será a narradora.

A vida é feita de escolhas, e escrever sobre a vida também.

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“Prezado Doutor K., quero lhe contar sobre minha vida, começando pelo que  me  aconteceu nestes últimos dias.  Sei que o senhor pode estar ocupado demais para me ouvir, mas eu acredito que pode me ajudar.

Passei duas semanas de férias com meus pais, e não foi nada fácil esse período. Era para ser, mas não foi. Gosto muito de meus pais, mas tenho enxergado atitudes que não gosto, deles e minhas,  e nem do jeito que tenho me sentido quando estou com eles. Tenho enxergado a minha família de um jeito diferente há algum tempo, mas desta vez foi tudo muito intenso.

Vou lhe resumir o que aconteceu. Fui convidada por eles para passar duas semanas de férias, todos juntos. Quando me convidaram, hesitei: antigamente era bom estarmos juntos, mas com o passar dos anos fui me sentindo com  vontade de me afastar deles. Eu andava notando que eu não era escutada quando a gente conversava. E eu também já não tentava me interessar pelas histórias deles, mas tentei ir.  Quem sabe era só a distância que estava nos afastando? A gente andava só se vendo em encontros breves, como almoçarmos juntos e cada um ir para casa. Pensei que seria diferente. Fui então ao encontro deles.

Nos primeiros dias estávamos bem. Falamos de algumas coisas, mas nada de mais. Acontece que eu estava sufocada com algumas idéias, e queria expor para eles. Mas não me sentia bem, não achava o momento. Porque minha mãe estava sempre vendo o celular, e meu pai vendo televisão e fazendo alguns comentários sobre as notícias que via. Estávamos juntos, mas distantes.

Eu disse “quer falar com vocês”, e eles me olharam. “Sobre vocês e eu”. Mas começar a dizer isto me trouxe uma onda de sentimentos fortes, ruins, pensei em não dizer mais nada, mas eu não podia perder a chance. E então falei. Mas havia uma raiva que me fez falar de um jeito errado o que eu queria dizer. Aconteceu: eu explodi com meus pais, como nunca em minha vida. Eu  resolvi dizer para eles muitas das coisas que venho pensando, só que errei o tom, eu sei. Eu deveria ter falado, mas eu exagerei na força das palavras.

Disse que eles sempre estavam implicando um com o outro desde que eu era criança, e que eles eram críticos demais comigo. Que eles criticavam tanto as pessoas que me parecia até eles se achavam melhores do que todos os outros do mundo. Por que se achavam mais corretos, mais organizados? Por que achavam  que convidar todos da família para almoçar conosco é uma gentileza deles, mas ai de quem não aceitar ou não achar isso importante? Que bastava que isso acontecesse para que falassem mal de quem não tinha aparecido.

Resolvi dizer para eles como eu enxergava as coisas, fui adiante. Sobre isso da família, que eles não convidavam porque gostavam de conviver,  mas porque queriam mesmo era se sentir o centro do nosso grupo. Disse que era egoísmo deles, que eles faziam estes convites para os outros porque eles exigiam atenção para si, na verdade.

Mais cedo, nesse dia, noite eu ligava  a televisão, e meu pai desligava. Eu ligava de novo e ele desligava. Mas eu não enxergava isso, só via quando já estava desligada. Era como se fosse por mágica que se desligava. Lhe conto isso porque enxerguei como as coisas sempre foram lá em casa: a gente podia falar sobre vários assuntos, mas não podia conversar de verdade sobre cada um de nós. As histórias da gente apareciam e logo desapareciam pelo silêncio, pelo tempo, como se fosse mágica. Porque quando a gente tentava conversar, terminava tudo em críticas e brigas.

São contradições demais. Minha mãe, eu disse pra ela que ela gostava de postar em redes sociais fotos do tipo “companhia maravilhosa”, fotos com as pessoas que ela acha importante mostrar para o mundo. E que 200 amigas dela comentavam “que maravilha!”. E que ela comentava depois “que maravilha” quanto estas 200 amigas postavam qualquer coisa. Que parecia um grupo de amigas de 8 anos de idade no colégio, dizendo “nós somos amigas e legais, e o resto é o resto”. Que era infantil isso, era bobo. Que era a vaidade dela que fazia isso. Ela me disse que eu que era infantil como sempre, mesmo com meus trinta e tantos anos eu continuava a criticando assim. Nesta hora foi como se tu tivesse uma vergitem: não eram eles os críticos de tudo? Então era eu? Fiquei confusa e silenciei. Quis ser ouvida e ajudar a nossa família, mas não deu certo. Nos outros dias eu pensava “esfria, silencia. Fala de qualquer assunto, menos de ti.”

Há muitos meses eu não convivia com minha família no mesmo ambiente e por tantos dias.  Foi difícil estar junto, porque eu não sou mais a mesma pessoa que fazia tudo o que eles queriam, achando que isto os deixaria felizes. Não consigo mais voltar atrás e fazer de conta que não enxergo o que acontece.

Com o passar dos anos aprendi a silenciar sobre mim, e assim venho sendo. Quando aprendi a silenciar eu podia estar sentindo qualquer coisa, menos me sentir à vontade com os outros. Pensei bastante sobre isso que vivi com eles , foi bom e ruim ao mesmo tempo. Foi duro ver que fiquei tão parecida com o que critiquei deles: me vi querendo ser a certa, a verdadeira, e acabei machucando.

Nestes dias me senti retrocedendo. Errei o jeito, o tom, escolhi mal as palavras, e aconteceu o que sempre acontecia lá em casa: eles se uniram. Porque alguém estava contra eles. Desta vez, de novo… eu.

Eu queria poder mudar, mas sabe? Cansa isso de querer ser eu mesma. Quero acreditar que tudo isso de mudança interior vai valer a pena, mas hoje me sinto triste.

Desculpa escrever tanto, mas queria que o senhor soubesse o que está acontecendo comigo. O senhor consegue me entender?

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Quando li o que P. escreveu, fiquei pensando em sua vida. Reli cada uma das frases, e vi a repetição de situações da sua vida. Era o mesmo funcionamento de sempre, mas era mais consciente do que acontecia. Vi que ela desejava ser ela mesma, ou seja, diferente.

Ela tentou. Não foi o ideal dela, mas ela tentou fazer alguma coisa diferente. Isto é diferente, é um começo de algo novo.

Vi a resistência para permitir mudança das próprias pessoas e das suas famílias, mais uma vez. Como tantas vezes vejo. Há anos. E sempre verei.

Algumas destas observações eu fiz para P., já que ela me pediu. Ela prometeu escrever de novo. Como sei que ela é persistente, logo ela vai nos contar mais sobre si.

Amor próprio

Gostar de si mesmo é uma questão interessante de se escrever. Este post é mais longo, e será o primeiro sobre este assunto.

Imagina a educação que as famílias oferecem para os filhos desde pequenos. Educação relacionada ao que é certo e o que é errado fazer.

E imagina os papéis que uma pessoa recebe antes mesmo de nascer. Cito alguns deles: de que religião será, vai torcer para qual time, que profissão terá.

Imagina que se pode ter sido ensinado desde pequeno a cuidar dos outros em primeiro lugar. Que uma pessoa pode ter recebido presentes, escutando enquanto os recebia que outras crianças não podiam ter o que ela ganhava. Pode ter escutado que o irmão ou a irmã era melhor aluno no colégio. Ter pais críticos demais, sempre achando defeitos e não apontando acertos. Ter vivido tristezas exageradas em casa, acima do que uma criança pode entender. Pode ter recebido um papel em família de ser sempre uma criança que não sabe cuidar de si, e ter se obrigado a ser criança ao longo da vida.

Tu estás me acompanhando. Entendeste que as causas de uma pessoa se ver como inferior são variadas, por isso dei alguns exemplos apenas. A essência é a descentralização de si mesmo, aprender a não ser o protagonista da própria vida.

Um adulto sente isso em sua mente percebendo dúvidas e mas dúvidas.

A insegurança e o medo para tomar decisões, e uma crença ruim de que os outros sabem mais inclusive sobre si aparecem constantemente no pensamento.

Adiante. Outro extremo seria aquela pessoa que aprendeu que ela é a melhor em qualquer coisa que faça. Se aprende a ler na escola (o que se espera que qualquer criança aprenda), ela é genial, mais inteligente que as outras crianças. Como se as habilidades normais do desenvolvimento fossem excepcionais. Podes imaginar o oposto das situações que descrevi antes e ver o que quero dizer.

Ser o melhor sempre, ser o parâmetro para os irmãos. Ter aprendido que nunca erra, porque quem erra são os outros, claro! Imagina um ser perfeito errar…

Um adulto assim formado sente certezas sobre si, tão fortes que os outros ao redor acabam sendo a platéia das suas verdades. Insegurança é coisa que os outros tem, coitados! Vemos aqui uma pessoa egoísta.

O primeiro tipo aproxima os outros para perto de si. Sabe cuidar muito bem de quem precisa de ajuda. Oferece o melhor que pode para os outros, porque é refém dos outros, da aprovação das outras pessoas para se sentir bem consigo mesmo. Este tipo esquece de si, se maltrata. Algo do tipo “bom com os outros, ruim consigo”.

O segundo tipo afasta os outros, porque brilha tanto em seu egoísmo que os outros se tornam dispensáveis, muitas vezes desqualificados por qualquer coisa: pelo jeito como se vestem, falam, pensam. Porque este exagero de valor que se dá para si cega a pessoa para ver os outros como são, e os admirar por serem simplesmente diferentes.

Vejo como profissional que pessoas totalmente altruístas sofrem por o serem, mas têm medo de gostar de si. Porque parece que há apenas um ou outro extremo. Se gostar de quem se é não haverá saída: se tornará egoísta. E este sofrimento é real e forte. Imagina querer ser bom contigo e tua mente entender isto como maldade. Por que tanta bondade com os outros menos contigo? Se és assim, podes ter certeza que estás te tratando de forma egoísta, má.

Além disso, quando se começa a falar para os outros o que se pensa, é comum reações dos outros do tipo “tu estás ficando egoísta , eu gostava mais de ti antes”. Palavras que machucam, mas que eu entendo como sinais de mudança, quando um paciente me conta que isso aconteceu.

Acredito que o meio termo é o amor próprio. Ser bom consigo mesmo e com os outros é um exercício que se pode fazer diariamente, de forma consciente.

Tenta pensar assim:

Se algo é bom para ti e para o outro, perfeito.

Se é ruim para ti e dizes “não“, estás dizendo “isto me faz mal”. Parabéns pela coragem de fazer diferente.

Se é ruim para ti e bom para o outro, mas se aceitas fazer por tua própria vontade, então tu sabes que estás te deixando em segundo plano. Compreender que negaste a ti livremente é liberdade de escolha.

Agora, se aceitas o que é ruim para ti e bom para o outro, e te ressentes disso, esqueceste de ti. Pena. Esqueceste de uma pessoa especial que convives diariamente desde o nascimento, que és tu mesmo. Tu vais cobrar de ti, ficar com raiva de ti, ou vais cobrar do outro reconhecimento e gratidão. Como a base deste movimento é submissão ou medo, podes ter certeza que amor ou bondade não são o que te movem. É o oposto. Medo, ansiedade, culpa, raiva.

Como há maldade contra ti, podes ter certeza que o resultado não vai ser bom. Vais oferecer a ti e te ressentir. E virar refém dos outros.

Te sugiro tentar gostar de ti como gostas dos outros. Vai leve na tua vida. Te garanto que não vais te tornar egoísta.

Cá entre nós, quem pode saber o que é melhor pra ti se não tu mesmo?

Estamos no caminho.

Hoje eu estava na sala de embarque do aeroporto de Porto Alegre, e vi na vitrine de uma livraria alguns livros cujos títulos diziam quase o mesmo: “como ser feliz”. Quem está lendo este blog pensa nisso.

A felicidade é o objetivo dos meus posts, claro que sim. O que escrevo são formas de uma pessoa observar a si mesma, ferramentas para pensar de forma objetiva sobre si e os outros. Eu optei por escrever sobre o caminho, não sobre a chegada.

Não é simples o autoconhecimento, mas é agradável conseguir. Com o tempo, tu irás perceber que ofereço uma forma lógica de observar a mente. Espero que os posts sirvam para ti.

Há dois meses comuniquei aqui que escreveria semanalmente. E tu e muitos outros me escutaram e passaram a me seguir.

Fico contente de dizer que o número de leitores do blog foi de cerca de dez para centenas por semana neste curto período de tempo.

Obrigado. Estou no caminho. Estamos no caminho.

Se te serve, vamos adiante.

Pensamentos que aprisionam.

Imagina as crenças essenciais que levas contigo como uma espiral que cresce com os anos. Imagina a tua atenção como uma ferramenta que entrega para esta espiral o que percebes da tua vida diária, para evoluir como pessoa. Desde criança aprendeste a definir quem és, pelos outros e por ti mesmo. E a pessoa que acreditas ser vai alterando tua forma de ver o mundo, e de entender a ti neste mesmo mundo. Vais crescendo, e alterando ou não as definições que fazes de ti para ti. Pensamentos como “sou triste, sou alegre, sou tímido” mostram o que quero dizer sobre definições de ti.

Pessoas rigidamente tristes sofrem por seus próprios pensamentos. Para estas escrevo agora.

Um esquema rígido de pensar mantém tuas crenças centrais tão fortes sobre seres triste, que assumiste como totalmente verdadeiros pensamentos que parecem não mudar mais. Tu te enxergas fundamentalmente azarado, errado, sem chance na vida, submisso a todos, há tempos?

Viveste tristezas? Com certeza. Acredito em ti. Mas não deste chance para mudar tua percepção e permaneces infeliz, não importa o que vivas de bom. Acredito que  escutes a frase clássica “mas tu tens tudo pra ser feliz”. Talvez tenhas, talvez não. O eixo central dos teus pensamentos não entende “ser feliz”, mas é perito na tristeza.

A partir daí te pergunto: tu realmente és esta pessoa azarada, errada, sem chance na vida, ou tu disciplinaste tua atenção para aceitar ou negar tuas percepções da vida de acordo com tua vontade e sem notar, ao longo dos ano, que o que és no presente foi definido no passado?

E se a lógica está invertida? Não é o mundo que te entristece apenas, mas a tua forma de ver o mundo é o que aumenta a tua percepção de sofrimento?

Se hoje estás triste, buscas sem notar nuvens no céu, elevadores que se fecham na tua frente, caixas de supermercado mal-humorados, e afirmas: “sou um nada mesmo, tudo dá errado”. Só que buscas nuvens, elevadores e caixas e escolhes estes fatos por hábito, para manter a espiral de crenças perfeita, intacta, de tristeza e azar.

Agora, de tantos e tantos fatos, pessoas, palavras, informações que vemos e escutamos, tantas situações que vivemos durante o dia, por que tu buscas para ti exatamente aqueles fatos que te mantém refém de ti mesmo?

E se olhares diferente? Se abrires tua percepção para outros fatos diferentes, se perceberes mais alegria, o que de ruim pode te acontecer?

Deixo em aberto o texto, porque os pensamentos agora são teus.

Nossas palavras e a nossa influência sobre os outros.

Quando falo, influencio. Porque faço com que quem me escuta altere, mesmo que naquele momento, seu pensamento ao prestar atenção em mim. E isto provoca sentimentos e idéias na outra pessoa, que permanecerão como memórias. Memórias afetivas.

Devo prestar atenção naquilo que falo, porque influencio e então retorna para mim o efeito de minhas próprias palavras. Se falo diretamente com outra pessoa e não percebo o que realmente estou dizendo, o sentimento subjacente retorna sem que eu tenha consciência disso. Se falo algo bom, crio no outro um tipo de sentimento agradável. Se falo sobre dores, doenças, crio sentimentos negativos no outro.

Por exemplo. Uma mulher reclama para seus filhos, sem se dar conta de que está agindo assim, de doenças que pode ter ou tem. Fala de suas dores no corpo em detalhes, quase como se estivesse falando com um especialista em dor e não com pessoas da família. Ela recita infortúnios que viveu, não importa se estes já foram recontados muitas e muitas vezes. São infortúnios dela, afinal de contas! Ela tem que falar, ela precisa se sentir importante, cada vez que fala com seus filhos. Ela acredita que assim receberá mais atenção, porque sofre e seus filhos precisam saber disso e ajudar. Mas acaba acontecendo exatamente o contrário com o passar do tempo. Ela já criou um estado de mal-estar e afastamento da família. Depois ela se pergunta “por que não gostam de mim? Por que se afastam se preciso de ajuda?”.

Porque existem os filhos, pessoas reais, e existem os filhos como platéia dos sofrimentos. E como esta peça sempre se repete, é compreensível que a audiência se vá aos poucos, certo?

O que foi dito ficou como memória afetiva, e a repetição das mesmas dores cria um estado de espírito de evitação, como exemplifico acima.

Nós permanecemos com a memória negativa ou positiva dos encontros anteriores, dependendo das palavras e dos sentimentos que as acompanharam.

A memória altera a percepção dos outros para quem tanto reclamou, ou soube falar palavras positivas, com certeza. A cada reencontro, a expectativa de ser bom ou ruim vai depender dos sentimentos vindos dos encontros passados.

Nossas próprias palavras criam situações que se repetem, para o bem ou para o mal. Regra simples de vida: retorna a mim aquilo que levo  para o mundo através de minhas minhas palavras.

Enxergaste ação e reação? Simples. Repetitivo.

Representar normalidade

Existem idéias do que é ser normal que servem para orientar a nossa conduta. Quem age ou fala diferente da média (a normalidade) pode ser visto como estranho e ser criticado.

A conduta normal depende de parâmetros que cada um acredita ser o que os outros irão aprovar ou reprovar em situações sociais. Comportar-se bem, não gritar, não isso ou aquilo. Regras e mais regras que são ensinadas para que possamos viver em sociedade.

As redes sociais oferecem um bom exemplo de normal. Se vejo uma postagem de alguém, e se a maioria das pessoas repete a ideia da postagem, então o assunto deve ser aceito, logo o certo é repetir a idéia. Normalmente quem te impede de postar  algo novo, tu ou o que os outros vão pensar de ti?

Concordar com a maioria é normal. Ir aonde todos vão é normal. Tantas condutas são consideradas normais. Concordar para se sentir normal, mesmo se queira discordar, isto é para mim uma necessidade de se representar normalidade.

Vejo o sofrimento de uma pessoa ter vergonha de seu passado, sua família, suas escolhas.  De não poder ser quem se é de verdade, porque não irão gostar disso. Não irão aprovar. Vejo isso tantas e tantas vezes.

Entendo que representar normalidade é parte da vida em sociedade. Mas entendo que não compreender que se está representando papéis tem efeitos ruins. Representar voluntariamente faz parte da vida. Não enxergar a encenação não me parece bom.

Posso sintetizar assim:

  1. Reconhecer as ideias “estranhas” que vêm à mente como algo pessoal, e reconhecer a falta de lógica para os outros faz bem. Acabo sentindo menos medo de ser quem sou. Se me respeito em minhas falhas, respeito aos outros. Simples assim.

  2. Negar o que se é me soa perigoso. Porque uma pessoa assim critica as outras pessoas. Julga, se diz certa. Um dia, seguindo sem parar neste rumo, haverá um cego afirmando que tem uma visão melhor do que os outros a respeito da vida.

 

Podemos nos respeitar como somos , e a partir daí estamos no caminho para ouvir e respeitar as outras pessoas, ou podemos escolher ir por aí, simplesmente representando normalidade.

Escrevo na primeira pessoa a respeito de um pensamento recorrente em muitas pessoas. Vê se te percebes aqui:

Sou parte de um grupo. Mais de um. Família, trabalho, amigos, conhecidos. Sou parte.

Mas não desejo ser igual aos outros. Desejo ser especial. Porque comum não é algo bom, então quero ser diferente.

Mas diferente do tipo raro e incomum. Do tipo louco do bem, que é bom.

Mas não do tipo louco do mal, doente mental. Isso não! Que não me vejam como insano por ser diferente. Isso não é bom.

Quero ser diferente então. Raro, incomum, singular.

Quero que meu grupo me aprove. Para isso acontecer preciso ser em parte igual aos outros, o que me torna comum em boa parte.

Mas não quero ser comum. Quero ser diferente…

E assim recomeça  o raciocínio, desde o princípio.

“Quero ser diferente dos outros, mas não causando espanto demais. Afinal, sou parte de um grupo. Não posso ser eu mesmo então.”

Quero ser importante, realmente quero ser.